No dia 18 dezembro faz 20 anos que o Rio de Janeiro recebeu de braços abertos o gago mais querido do País, David Brazil. Em homenagem a essas duas décadas de pura alegria, o MEIA HORA preparou entrevista especial para contar a trajetória vencedora do nosso Coisa Rica. De origem humilde, Francisco David dos Santos nasceu em Recife (Pernambuco) há 39 anos, cresceu em Campina Grande (Paraíba) e sempre sonhou em conhecer a Cidade Maravilhosa. "Eu queria ser modelo e manequim e trabalhar na TV, como todo gay nordestino. Eu morria de vontade de viver no Rio". Ao 18 anos, ele juntou dinheiro, pegou um ônibus e veio para o Rio passar férias na casa de um casal de amigos. "Eu me apaixonei e jurei que ficaria aqui para sempre". Sempre bem-humorado, David fala das dificuldades da infância, da carreira, de homossexualismo, de religião, da perda da mãe e dá uma lição de vida diante dos problemas: "Posso ter mil defeitos, porém Deus me ama. Sou mais que um vencedor".

Como você veio parar no Rio?
Em Campina Grande, eu estava sempre na casa das minhas amigas Do Carmo e Nicinha, que são irmãs. Lá, conheci Evaldo e Ivone. O casal me convidou para passar férias na casa deles, no Rio, em Botafogo. Na época, eu trabalhava como empacotador de café. Eu fui demitido, peguei o dinheiro, comprei uma passagem de ônibus e vim pra cá. Foi amor à primeira vista. Em cinco dias estava procurando trabalho. Em 15 dias, eu me mudei para um cortiço, onde dividia o banheiro com 14 pessoas.
Como você se sustentava?
Eu trabalhei de sacoleiro e vendia roupas. Depois, fui caixa em um restaurante em Ipanema, e virei relações públicas de um outro, no Leblon. Um dia, eu cobri a falta de uma recepcionista e só estava autorizado a dizer: 'Oi, boa noite e obrigado'. Mas eu falava mais. Os clientes gostavam de mim e me chamavam. Foi onde eu conheci o ator Marcos Breda. Ele ia fazer a peça "Os Sete Brotinhos" e fez laboratório de gagueira comigo. Saí em tudo que era jornal e revista.
Quando você se destacou pela primeira vez na TV?
Em 1996, fui ao programa do Jô Soares, fiz muito sucesso, aí tudo começou. Ainda voltei três vezes.
O que você comprou com o seu primeiro salário?
Fui numa loja de grife que eu amava e comprei um calça jeans e uma camisa toda florida. Depois, eu só gastava dinheiro fazendo book de modelo. Eu desfilei algumas vezes, mas quase não fotografei, porque eu saía feio na foto.
Sofreu algum preconceito?
Claro. Um gago gay e paraíba sempre ouve piadinhas. Mas eu sempre superei com bom humor.
Você é conhecido por sua alegria. O que deixa David Brazil triste?
Nada. Até evito ir a velório, não sei o que me dá que começo a rir. A única vez que perdi o humor foi quando minha mãe (Dona Maria Cícera) morreu, em 2007. A pior tristeza da minha vida. Ela sempre me deu carinho. Nunca disse a ela que era gay, mas ela sabia.
Sua mãe era evangélica. Qual a sua religião?
Eu me considero um evangélico não praticante. Eu adoro as músicas. Sempre ouço Shirley Carvalhaes (cantora gospel). Ela canta algo que tem tudo a ver comigo: "Posso ter mil defeitos, porém Deus me ama. Eu sou mais que vencedor".
Quando você assumiu que era gay?
Eu sempre soube que era gay. Nunca tive atração por mulher. Até hoje, algumas mulheres dão em cima de mim, e já ouvi: 'Se eu te pegar, você deixa de ser gay'. Mas não há chance. Eu sou 100% gay.
Você está namorando?
Eu estou encalhado. Muitos bofes são interesseiros, então, eu prefiro não ter nada sério.
Quando foi sua primeira vez e sua primeira paixão?
A minha primeira vez foi na adolescência, na Paraíba. E eu nunca me apaixonei. Acho melhor assim. Pra que sofrer?
Você sonha ter filhos?
Não quero ter filhos agora. Eu já tenho seis sobrinhos e são como filhos para mim. Acho que quando tiver uns 50 anos, vou adotar uma menina.

Você é vaidoso? O que faz para cuidar da pele?
Na Paraíba, eu lavava os cabelos com sabão de coco, porque não tinha grana. Mas agora cuido mais de mim, uso xampu importado e creme no corpo todo. Eu também estou sempre perfumado. E como estou para fazer 40 anos, procurei um dermatologista. Não quero que me chamem de bicha maracujá.
Você fez há pouco tempo lipoaspiração na cintura e arrebitou o nariz. Gostou do resultado?
Adorei. Ainda estou um pouco inchado, mas estou me achando lindo. Nem senti muita dor. Eu já havia feito implante capilar.
Você tem alguma mania?
Eu só ando pelado em casa. E recebo as minhas visitas enrolado na toalha.
O que falta hoje para você se sentir realizado na carreira e na vida pessoal?
Eu gostaria de conhecer Nova Iorque (EUA) e Paris (França). Mas eu tenho um grande sonho: construir um prédio em Campina Grande para toda a minha família morar. Eu tenho dois irmãos e duas irmãs e queria que eles viessem para cá, mas eles têm pavor daqui, por causa da violência. Eu não consegui nem que minha mãe viesse pra cá.
Sua infância foi difícil? Passou por necessidades?
Foi muito difícil, sim, mas sempre fui feliz. Havia dias em que o almoço e o jantar eram banana verde cozida ou, então, farinha com sal e coentro. Já passei muita fome nessa vida. Hoje, eu ajudo a minha família financeiramente todo mês.
Qual o seu prato de comida favorito?
Eu amo arroz, feijão e bife de panela, mas não sei cozinhar nada. Sei comer bem (risos).
Qual a maior dificuldade que passou no Rio?
Eu sempre usei o calçado do tamanho do meu pé. Não fiquei sem comer aqui. Mas, no início, quando aluguei um quarto de empregada, em Copacabana, na casa da Dona Lígia, com quem eu falo até hoje, tive alguns problemas. Uma vez, eu fui pegar um ônibus para o Largo do Machado e quando ia pedir informação para o motorista, ele ia embora. Eu demorava a terminar a frase e iam embora. Fui falar com um policial e ele foi grosseiro. Nesse dia, eu desisti de ir a uma entrevista de emprego porque não conseguia saber como chegar.
Hoje, sua vida é estável?
Para mim está tudo maravilhoso. O que vier é lucro. Comprei meu primeiro apartamento aos 25 anos, em Ipanema. Depois, vendi e, aos 35, me dei de presente um na Barra, onde eu vivo hoje.
Você é praticamente um carioca. Qual o seu cantinho preferido da cidade?
A Barra da Tijuca. E olha que eu falava muito mal de lá. Quando cheguei ao Rio, dizia que jamais moraria naquele lugar. Na época, eu nem ia a pontos turísticos, como o Cristo Redentor. Sem dinheiro, eu ia só para a praia.
Qual o seu programa favorito por aqui?
Eu trabalho muito, mas quando estou de folga gosto de ir a baile funk e à quadra da minha escola do coração, a Grande Rio.
E como é ser colunista do jornal 'MEIA HORA'?
Eu adoro o 'MEIA HORA'. Adoro ser popular e estar nas comunidades. Adoro quando me param no trânsito e comentam sobre a coluna. Acho o máximo dar abraço e beijo nos fãs.

Túnel do tempo com DAVID BRAZIL
Confira a trajetória de sucesso do nosso Coisa Rica. Você sabia que ele já fez um personagem
na telinha que falava sem gaguejar?
O menino que sonhava em ser artista trabalhou muito e conseguiu entrar para a TV. Em 1994, David Brazil estreou na telinha como ator, numa participação na novela Quatro Por Quatro. Dois anos depois ele teve o seu primeiro papel fixo, um garçom na minissérie da Globo O Fim do Mundo. Em Aquarela do Brasil (2000), o Coisa Rica encarou um de seus maiores desafios: viver o personagem Norberto, um barman que - acreditem! - não era gago.
"Eu sempre gaguejava e tinha que refazer. Foi um presentaço do diretor Jayme Monjardim", conta ele.
E não é que o gaguinho mais amado do Brasil deslanchou? Ele ganhou um quadro no Planeta Xuxa (2000), no qual entrevistava famosos, ao lado de Amin Khader. "Foi com a Rainha dos Baixinhos que fiquei realmente conhecido", agradece David, que é o queridinho das celebridades, como Carolina Dieckmann e Ronaldo Fenômeno.
O sucesso era tanto que a revista G Magazine o convenceu a fazer um ensaio sensual em 2003. E, em 2006, ele comandou, ao lado de Helen Ganzarolli, o quadro Trocando as Bolas, no Domingo Legal, do SBT. "Era para ser exibido só uma vez, mas ficou três meses. Paramos para não ficar chato", lembra David.
Além de colunista do MEIA HORA desde a estréia do jornal, ele trabalha na rádio FM O DIA há quase oito anos, é promoter da churrascaria Porcão, divulga a escola de samba Grande Rio, faz presença em eventos e tem uma coluna na G Magazine. Ufa! Esse gaguinho é poderoso! Sorte a nossa, dos cariocas, ter o Coisa Rica entre nós.