Ele já vendeu revista velha para juntar um dinheirinho, trabalhou em açougue, foi manobrista de uma boate, garçom e discotecário - sim, o cara é do tempo em que DJ era chamado de discotecário. "Nossa, eu sou antigo!", ri Wagner Montes, cheio de orgulho das suas tantas histórias pra contar, que incluem os tempos em que foi ator e cantor - "Eu era horrível cantando" - e passam pelos seus 35 anos de carreira como jornalista. Para comemorar esse aniversário de 35 anos, Wagner tem uma ótima notícia para nossos leitores: a coluna dele no MEIA HORA, 'Balanço Geral', vai passar a ser publicada três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas. Aos 54 anos, casado há 22 com Sônia Lima, pai de Wagner e Diego, o dono do bordão "Escraaaaacha" não pára um minuto. A equipe do MEIA HORA passou um dia com Wagner Montes, correndo de casa para a Record, onde ele apresenta o programa diário 'Balanço Geral', e de lá para a Assembléia Legislativa, onde o deputado estadual luta, principalmente, pelos direitos dos policiais.
Nessa reportagem, fica claro que Wagner Montes é como aparece na TV: simples, divertido e falante. É só abaixar o vidro do seu carro que todos na rua o cumprimentam. E a todos ele chama de 'sangue bom'. Na Record - onde é o único apresentador que ostenta um anel de ouro com a logo da emissora -, fala com todo mundo. Sempre com o sorriso no rosto. Ele é ou não é sangue bom?

Você é conhecido no Brasil inteiro, mas como era a vida do menino Wagner Montes, que nasceu na Baixada Fluminense?
Minha infância foi pobre. Nasci em Duque de Caxias. Eu soltava pipa e andava de bicicleta. Hoje, é muito difícil ver criança solta nas ruas, as mães dizem para as crianças não andarem descalças porque vão ficar doentes. Eu só andava de pé no chão, pisava na terra, em esterco, e pegava peixinho na vala. Nunca tive nada. Sabe aquela coisa que dizem que não pode tomar leite com manga ou tomar banho depois de almoçar? Faço isso sempre. Com 12, 13 anos, eu e minha família, de seis pessoas, fomos morar num conjugado em Copacabana.
E como foi que você começou a ganhar dinheiro?
Eu ia para a frente do Copacabana Palace, com dois caixotes e uma tábua, colocava em cima revistas famosas da semana anterior e vendia pela metade do preço. Pegava jornal velho e vendia em açougue pra enrolar carne. Eu sempre fui falante. Consegui emprego num açougue. Lá, eu convenci o dono a ter um cantinho para vender chocolates, doces e balas. Assim, eu ganhava mais. Depois, conheci o dono da boate Zoom, em Copa. Trabalhei como manobrista, assistente de garçom, garçom e discotecário. Eu adorava tocar os sucessos do Elton John, Jackson Five e James Brown. Mas perdi o emprego quando vi um cara metendo a porrada na mulher. Eu parti para cima para defendê-la e, de repente, tomei uma sapatada na cabeça. A mulher me disse: 'Você sabe se não gosto de apanhar?'.
Você era namorador?
O esporte que sempre gostei de praticar era namorar. Vestia a minha melhor roupa, calça boca-de-sino, passava perfume e ia para o baile do Botafogo. Na época, eu escutava e dançava Renato e Seus Blue Caps. Nossa, eu sou antigo! Os caras ficavam aliviados quando eu não ia para o baile (risos).
Quando estava com grana no bolso, com o que você gostava de gastar?
Eu alugava velosolex (bicicleta com motor) pra andar.
As pessoas já diziam que você deveria ser artista?
Eu tinha 18 anos e vendia camisas numa loja da Saara. O dono dessa loja dizia pro meu pai: 'Seu filho vai ser artista'. Na época, homem artista era homossexual, e mulher artista era prostituta.

Dava para conciliar o trabalho com os estudos?
Eu sempre estudei. Mas não tinha dinheiro para pagar a faculdade. Uma vez, eu fui para Cabo Frio e conheci um cara, que ele não gosta que eu diga o nome dele, que me deu uma bolsa de estudos na Universidade Gama Filho. Eu fiz Direito lá e me formei em 1978.
Como começou a carreira de repórter policial?
Em 1974, um amigo me levou à Rádio Tupi. Eu ficava lá observando... Um dia precisaram de repórter
para cobrir uma rebelião no presídio Galpão da Quinta. Lá fui eu, para minha primeira matéria. Pulei o muro do presídio e, quando vi, estava tomando um monte de porrada nas costas. Os policiais dizendo que eu não podia ficar ali. Cheguei com a matéria e fui contratado. Eu era chamado de "O repórter sem medo". De manhã, era repórter policial, e à tarde, produtor, para ganhar mais. Fiquei cinco anos na Tupi.Depois, na Rede Tupi, fiz o programa 'Aqui, Agora'.
E a vida de ator e cantor?
Eu fiz 40 fotonovelas, com a Myriam Pérsia, Fátima Freire, entre outras. Nas cenas de beijo, eu piscava pra beijar de novo e de novo (risos). Também fiz o filme A Morte Constrangedora, com a Bibi Voguel. Eu fazia uma cena de cama. Eu fiquei nervoso, a atriz era muito 'boa'. E gravei dois LPs e três compactos. Fazia shows, mas eu era horrível cantando. Elas jogavam calcinha,sutiã, no palco. E eu peguei fã, sim. Eu era solteiro.
Como foi seu primeiro encontro com Sílvio Santos?
Peguei o avião para São Paulo, sem nunca ter viajado de avião na vida.E me disseram pra eu não comer nada que tudo era caro. Era hora do almoço, mas não comi nada. Eu bebi água da torneira do banheiro do avião. Quando cheguei a São Paulo que fiquei sabendo que me deram um trote. Faminto,eu fui para a casa do Sílvio.O tapete afundava o pé. Quando ele chegou, me deu uma tremedeira. Meu pai disse que eu tinha que ser difícil, falar que eu ganhava mais e o que me oferecesse era para eu dizer que ia pensar. Sílvio perguntou quanto eu ganhava e disse o que
equivale na moeda de hoje a R$ 20 mil e ainda exigi o meu pessoal para ir pra TVS (atualmente
SBT). Ele disse: 'Quero você de qualquer jeito'. E me ofereceu R$ 200 mil. Quando voltei pro Rio,
no avião, comi 11 sanduíches e tomei cinco Cocas. Em casa, contei pro meu pai a proposta do Sílvio e ele disse que eu tinha que ter aceitado na hora. Eu disse: 'Mas, pai, não era pra eu dizer que ia pensar? Fiz o que você mandou'. 'Então, liga pra ele e diz que você já pensou'. Fiquei 17 anos no SBT. Fiz 'O Povo na TV', 'Jornal Policial', 'Clube dos Artistas', 'Musicamp', 'Musidisc'
e 'Show de Calouros'.
No SBT, você conheceu a Sônia Lima, que é sua mulher há 22 anos, né?
Sim. Ela era assistente de palco.Eu vi a Playboy dela e fiquei louco. Eu um mês, namoramos, noivamos e casamos. Temos um filho, Diego, de 19 anos. Eu tenho um outro filho com Catia Pedrosa, Wagner, de 22. Não casamos. Ela me ensinou a ser homem. Eu era um cavalo, mas sem técnica.

No meio disso tudo, você ainda é deputado estadual no Rio. E o tempo?
Eu saio da Record e vou para a Alerj. Saio de lá às 20h, 21h. Nunca faltei a uma sessão da Alerj. Tenho orgulho disso, mas é sacrificante. Perdi a formatura do meu filho. Chorei, mas é opção.
Depois de deputado, quer se candidatar de novo?
Não faço projetos idiotas. Consegui aumentar o seguro de vida dos policiais. Minha área é a segurança. Umdia posso ser governador.
Você ficou na CNT por nove anos e, hoje, está na Record com o sucesso Balanço Geral. Qual o segredo?
São 35 anos de carreira, mas algo importante que faço é que não deixo que a minha produção me
conte nada do que vai rolar no programa. Fico sabendo na hora. Eu vejo a matéria, pela primeira vez,
junto com o telespectador.
No seu camarim, há várias garrafas de uísque no armário. Gosta de beber?
Não bebo, eu ganho as garrafas. Só bebo pra 'cruzar'. Aí vai um vinho pra fazer clima.
Na mesa da sua sala na Record, há uma garrafa com líquido escuro. Pra quê?
É garrafada da índia, me deram de presente, e tomo uma vez por semana para fortalecer. Eu
acho que é catuaba e tem um filhote de cobra dentro (risos). Mas não é pra isso que você está pensando. Sou borracha fortíssima.